Há alguns dias percebemos que uma loja, onde encomendávamos presentes personalizados, havia fechado. Comentei com minha mãe que é um mercado cada vez menos rentável, ela disse: "deve ser porque as pessoas estão frias e distantes, não querem mais mandar mensagens, nem presentes." Isso me fez refletir. Sobre tudo. Lembro que no colegial era incrível receber uma mensagem fonada ou um carro de som, com aquele CD onde vinham as músicas e a declaração que o remetente escolhia com todo carinho, às vezes a pessoa até colocava um urso, uma caixa de chocolate ou flores no pacote.
Isso fazia os destinatários como eu se sentirem especiais, fazia com que as pessoas, quando não se sentiam populares ou valorizadas, se sentissem felizes por alguém ter lembrado delas, por ter tido o trabalho de ir até uma loja dessas para escolher as músicas que elas mais gostam, levando as fotos e todo o seu coração.Atualmente se um carro de mensagem parar na sua porta, anunciando para o mundo que você está fazendo aniversário, é extremamente vergonhoso. Fazem até memes negativos disso. Então as lojas especializadas nisso vão fechando, assim como as pessoas que outrora contratavam esses serviços, como também as que recebiam.
A lei atualmente é ser discreto, claro, algumas coisas precisam ser guardadas para nós mesmos, mas quando se trata de amor, amizade, carinho, precisamos ser escancarados. Aquele texto ou frase que você manda pelo facebook quando o seu amigo faz aniversário pode ser um sinal de carinho, porque você tirou alguns minutos ou segundos para digitar, mas não é o suficiente. Cadê aquela festinha surpresa? Aquele presente simples mas de coração? E o abraço que você fazia questão de dar, junto com os parabéns ao pé do ouvido? Cadê aquela pessoa que ia aonde o amigo estivesse quando ele ligasse precisando? Para onde foram as ligações demoradas?
Nossa desculpa é sempre: "Agora não tenho tempo, depois eu dou um abraço nele, mando um presente." E esse "depois" sempre acaba demorando, tanto que nos envergonhamos de dar o presente e o abraço por aquele motivo específico, afinal o tempo passou mais do que o planejado. É mais cômodo mandar mensagem no conforto de nossas camas e centrais de ar.
Trocamos o relacionamento face a face por tecnologias, dezenas de redes sociais e somos ativos em todas elas, mas será que já visitamos aquele amigo de infância nesse ano? Já nos fizemos realmente presentes naqueles almoços de família? Já conversamos e brincamos com nossos avós? Já ouvimos nossos sobrinhos?Sabemos como está o trabalho dos nossos pais? Verificamos se eles estão precisando de alguma massagem por passarem dias e dias sentados ou pegando no pesado? Dormimos na casa daquela amiga que tentou suicídio para demonstrar que estamos ali, que nos importamos? A minha resposta para 90% dessas perguntas é um horrível e sonoro NÃO.
Para onde foram aquelas pessoas que não tinham medo de demonstrar? Que gritavam para o mundo o quanto amavam alguém? E aquelas que não tinham vergonha desses gritos? Para onde fomos? Onde estamos? Por que todo esse medo? Quando deixamos esse "eu" reprimido? Foram as desilusões? Foi o sofrimento? E daí? Vamos continuar com medo? Podemos morrer amanhã com ele e sem nenhuma história emocionante para levar conosco. Sem nenhuma amizade realmente significativa. Mandem carros de mensagem sim, organizem festas simples de aniversário sim, escrevam cartas, visitem, liguem, abracem, demonstrem, vivam. Amem intensamente. Não deixem que tanta repressão os joguem da janela do quinto andar. Façam as suas vidas serem extraordinárias.