De repente me sinto só, pequena, sem esperança. De repente nada do que vivo ou faço faz sentido. De repente me sinto desconfigurada, como a música da Pitty, está tudo fora de lugar e eu me perco. Me perco dentro de mim, dentro da rotina, das escolhas que eu fiz e isso me assusta, fere, dói. De repente desejo não ser mais eu, fulana deve ser mais feliz, parece feliz, tem a vida certinha, um futuro brilhante, queria ser fulana. Aí descubro que fulana também se sente perdida e sem sentido. "Ei, fulana, eu sei como é, te entendo, me abraça?"
De repente descubro que eu não estou só, que mesmo que não tenha enxergado, o meu vizinho também sofre com isso, também se arrepende, também não gosta da vida. Descubro que se formos procurar podemos compor um grupo de apoio, cada um falando sobre as suas experiências e sentimentos, quem sabe assim os nossos corações voltem a bater por algo que valha a pena, do ponto de vista de cada um, quem sabe nos ajudemos a encontrar o caminho, a luz, o propósito.
De repente eu percebo que nem tudo está perdido, que não faz mal ter várias perguntas e nenhuma resposta, não precisamos saber, podemos descobrir ao longo do tempo, das experiências. De repente eu exergo que se não está bom, é saudável mudar, mudar de ares, tentar novas possibilidades, até encontrar aquilo que me faça feliz. Quando digo isso, as pessoas costumam falar que é normal sofrer, que nada de bom vem fácil, tem que sofrer para merecer. Equívoco. Nós merecemos por sermos quem somos, quer prova maior que essa?
De repente as coisas vão clareando, as lágrimas cessam, já não me vejo tão fora de mim, já consigo me reconhecer, aliás, "oi! Não conseguia te ver, Gly, desculpa!" De repente eu sei o que devo fazer, qual caminho tentar, enxergo um mundo de possibilidades e o sorriso vem, quando as dúvidas param de assombrar, ele sempre vem.